O sertão não é paisagem de postal. É pele ressequida, olhar direto, mãos calejadas que seguram a enxada e o chapéu de couro. Durante três semanas, percorremos 2.400 quilômetros de estrada de terra entre Pernambuco e Ceará com uma única missão: fotografar rostos.
Sem flash, sem direção de arte. Apenas luz natural, câmera analógica em preto e branco e tempo para conversar antes de apertar o disparador.
A luz do meio-dia
No sertão, a luz do meio-dia é implacável — e perfeita para retrato. As sombras desenhadas pelas sobrancelhas grossas, pelos vincos ao redor dos olhos, pelas rugas que contam mais que qualquer biografia.
«Tira a foto, mas não esquece de contar que a gente planta mesmo sem chuva.»
Mulheres do agreste
Dona Maria, 65 anos, lidera uma cooperativa de mel em Tauá, Ceará. «Ninguém vem aqui filmar a seca», ela diz. «Vêm filmar a miséria. Eu quero que vejam o trabalho.» Sua foto — olhar firme, mel nas mãos — virou a capa desta série.
Encontramos jovens que voltaram da cidade grande para cultivar cacau orgânico, vaqueiros que atravessam a caatinga a cavalo, crianças que brincam de pião sob o sol de 40 graus. Cada retrato é um contrato de respeito: ninguém foi fotografado sem consentimento e todos receberam cópia impressa.
O que fica
Esta série não pretende romantizar a seca nem dramatizar a pobreza. Quer registrar presença — a mesma presença que Euclides da Cunha descreveu e que a fotografia, séculos depois, ainda luta para capturar com justiça.
Os negativos estão arquivados. Os rostos, guardados na memória de quem os viu — e de quem, ao virar a página, talvez nunca mais os esqueça.